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Adolescentes que se cortam: um pedido de socorro

O hábito de se cortar sempre ocorreu na vida de seres humanos, especialmente entre os adolescentes, porém nota-se um crescimento significativo nesta faixa etária nos últimos tempos.

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As pesquisas mostram que pessoas que machucam a si mesmas deste modo, estão tipicamente entre 13 e 15 anos de idade, do sexo feminino, podendo ocorrer também em outras idades e perfis. Este ato, considerado como uma automutilação ou autolesão, corresponde a uma forma de lesão provocada por uma pessoa a seu próprio corpo sem a intensão de suicídio na maioria das vezes.

Segunda a pesquisadora Anna Karla Garreto, a explicação de tal comportamento estar aumentando recentemente, pode estar relacionado à era da internet onde existem salas de bate papo sobre o assunto, onde as pessoas que costumam se cortar postam fotos, incentivam e dão apoio a outras pessoas a fazerem o mesmo. O aumento deste ato pode estar relacionado também ao fato de atrizes e outros famosos terem assumido publicamente que já se cortaram, incentivando assim com seu discurso, que adolescentes façam o mesmo.

Entender por que as pessoas, em especial este publico de adolescentes se cortam, bem como pensar em como ajudá-los tem sido algo bem desafiador. É importante compreendermos que se trata de um comportamento extremamente agressivo, podendo na maioria das vezes se tornar um comportamento “viciante” e compulsivo, passando a ser compreendido e classificado como Transtorno Psiquiátrico grave que requer tratamento, não devendo então, ser encarado apenas como um comportamento “para chamar a atenção”.

Este comportamento de se machucar faz o cérebro liberar ENDORFINA, tal substância produz no indivíduo uma sensação de bem estar, fazendo com que a pessoa não sinta tanta dor durante o ato e o trauma, já que a endorfina tem um poder anestésico em nosso organismo, de maneira que, a situação ou sentimento desencadeador do ato seja até esquecido. Com o passar do tempo à pessoa pode se cortar apenas para sentir aquele “bem-estar” e prazer do ato sem ter motivos prévios que o justifiquem.

– Tentativa de acabar com uma dor interna, através do sentir uma dor externa que me faça esquecer e aliviar a outra.

– Um pedido de ajuda à família e aos que estão próximos.

– A presença de um sentimento de raiva intensa e contida.

– Um comportamento de autopunição: “Sou merecedor desta dor, por me sentir culpado de diversas coisas”.

– Uma tentativa de simplesmente sentir “algo”, ligado a grande dificuldade de entrar em contato com seus próprios sentimentos.

Se cortar pode trazer ao adolescente a falsa sensação de estar lidando com seus sentimentos, angustias, perturbações e ódio, quando este não consegue lidar de outras maneiras, portanto, está muito ligado a pessoas com dificuldades em se expressar.

Tal comportamento pode também, estar ligado a outros transtornos psiquiátricos: Depressão, Estresse pós-traumático, Transtorno Obsessivo Compulsivo ou Transtorno de Personalidade Boderline.

Ao se deparar com um adolescente que desenvolveu este comportamento, pedir, implorar para ele parar ou ainda tentar interrompê-lo a força, não costuma ser eficiente. O indicado é se mostrar disponível ao adolescente para escutá-lo, tentar o diálogo, não julgá-lo e por fim, oferecer ajuda profissional que consiste em tratamento psiquiátrico, já que a introdução de medicamentos nestes casos é quase sempre necessária.

E paralelamente, o tratamento psicológico para que o adolescente desenvolva outras maneiras mais saudáveis de se expressar, pedir ajuda, podendo também identificar os fatores desencadeantes deste ato e ajudá-lo a entrar em contato com suas dores internas, sem necessitar provocar dores externas, podendo ficar livre deste comportamento que provoca tanto sofrimento ao adolescente e a todos que estão em sua volta.

Sobre Marcia Nicoli

e-mail CRP 06/65920 Psicóloga, formada pela UniFMU, especialista em Dependência Química pela UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo e Especialista no Método de Rorschach (Avaliação Psicológica) pela Sociedade Rorschach de São Paulo. Trabalha como diretora no CAPS-AD de Itapecerica da Serra e no consultório em atendimento clínico à adolescentes e adultos.