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O medo de ter medo

O medo, a raiva, a tristeza e a alegria são emoções naturais do ser humano e isso significa que todos vamos senti-las em alguma circunstância da vida. As respostas que daremos diante dessas emoções é que farão a diferença e principalmente, que poderão nos auxiliar no processo de autoconhecimento, autodomínio e auto superação.

Elas fazem parte de um movimento interior e individual no processo de sentir a vida e de reagir diante das experiências vividas. Sofrem a ação de componentes biológicos (como bases hormonais, por exemplo), mas sobretudo de componentes subjetivos que estão relacionados ao momento psicológico da vida de quem sente.

Tratemos do medo, tema central deste texto. Como dito acima é uma emoção natural, mas que pode adoecer dependendo da resposta que se dá frente a ela.

O medo aparece como mecanismo de defesa ou sistema de alerta sobre os limites, as capacidades, a proteção e os riscos que o indivíduo precisa cuidar. Em alguns casos, pode caracterizar-se pela dificuldade pessoal de reconhecer em si os seus recursos e habilidades para enfrentar o mundo. Podemos ilustrar com o exemplo de alguém que passou por uma experiência amorosa dolorosa, que trouxe dissabores e contribuiu para que esse alguém se mostrasse mais resistente as experiências amorosas posteriores, acreditando (por medo) não conseguir lidar com nova frustração.

É comum na clínica, observamos as diversas formas de camuflagem dessa emoção. O tímido, muitas vezes o é por medo e não por incapacidade. Tem tanto receio que sua imagem seja ferida perante a opinião alheia que se recolhe. Aqui, o grande desafio é o sujeito se valer do que realmente é e não do que o outro pensa a seu respeito. Ninguém nasceu para cumprir com aquilo que o outro espera para si e sim para ser si mesmo, tarefa essa nada fácil.

Há aqueles que denotam escrúpulo, demonstrando uma forma de afirmação da realidade que faz valer uma opinião ou atitude como de querer passar uma imagem com retidão. Possivelmente, é um crítico sistemático, mas que por medo de fazer contato com aquilo que está mal resolvido em si, busca o domínio de fatores externos e/ou do outro.

Tem o medo de tentar. Aquele que prefere isentar-se da tentativa a correr o risco do fracasso, da frustração.

Mas a grande epidemia da contemporaneidade é o medo em excesso que consequentemente gera muita angústia. Aquela que se transforma em pânico e paralisa o sujeito. Esse temor pode ser sobre pessoas, coisas, situações ou atitudes que se tornam objeto de um terror paralisante. Enquanto sintoma, o pânico é um medo específico intenso, cujo estímulo é projetado para o exterior a fim de eliminar a angústia. O sofrimento é grande, pois o indivíduo parece ficar sempre à espera do perigo, inquieto, apreensivo, perplexo e receoso com medos do passado, do presente e do futuro. Em muitos casos, há um estreitamento do repertório social e do campo existencial de quem passa por esse diagnóstico, o que acaba por comprometer sua vida familiar, social, profissional e/ou amorosa.

Portanto, é importante olhar e lidar com os nossos medos, essencialmente quando eles não nos parecem saudáveis. Dessa forma, é possível reconhecer se estamos passando por uma crise de angústia, de transferência de poder para que o outro determine o que eu sou ou tenho que ser, de fadiga ou de dificuldades em dar continuidade a vida social por um estado constante de alerta para perigo “eminente”.

Se está difícil distinguir os seus medos ou se você se sente paralisado por eles, procure ajuda psicoterápica para olhar e buscar compreender a representação e o significado do medo de ter medo que pode existir dentro de você.

Sobre Patrícia Ignácio Barreto

e-mail CRP 06/73625 Psicóloga formada pela UniFMU. Especialista em Psicologia Clínica pelo Hospital do Servidor Publico Estadual. Especialista em Dependência Química pela UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo. Psicóloga no CAPS-ad de Itapecerica da Serra. Atendimentos no consultório em psicoterapia a crianças, adolescentes e adultos, avaliação psicológica e orientação a pais.